Em uma das comunas mais multiculturais de Bruxelas, Saint-Gilles se destaca pela forte presença das comunidades brasileira e portuguesa, que ajudam a impulsionar a economia, a cultura e a vida local. Nesta entrevista exclusiva à Ângela Piqui Magazine, o prefeito de Saint-Gilles, Jean Spinette Bourgmestre, fala sobre integração, empreendedorismo, segurança, diversidade e os projetos que desenham o futuro da comuna, reforçando o papel da comunidade lusófona na construção dessa história.
Perguntas da entrevista
1. Para começar, o senhor poderia apresentar brevemente sua trajetória política e seu trabalho como prefeito de Saint-Gilles?
Vim trabalhar em Saint-Gilles depois de ter atuado no gabinete da Cultura do ministro Charles Picqué. Foi ali que conheci Saint-Gilles, a comuna do ministro, e que conheci a companhia de dança As Palavras, dirigida por um brasileiro residente em Saint-Gilles, graças ao meu chefe de gabinete, Serge Rangoni, que, depois de ter dirigido o Teatro de Liège, tornou-se recentemente diretor do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. Tornei-me responsável pelos processos de subsídios europeus destinados à renovação dos bairros e também responsável pela Cultura. Candidatei-me às eleições de 2006 e fui presidente do CPAS durante 12 anos. Tornei-me prefeito em setembro de 2022.
2. O que mais o surpreendeu positivamente na comunidade brasileira e portuguesa desde que assumiu o cargo de prefeito de Saint-Gilles?
Em Saint-Gilles, a dinâmica social, cultural e gastronômica de Portugal e do Brasil. Estamos em uma comuna particularmente multicultural, com a particularidade de possuir comunidades que ultrapassam oficialmente mil pessoas, o que lhes proporciona visibilidade, acompanhada de uma dinâmica associativa e comercial. Além disso, a comunidade portuguesa, seguida pela comunidade brasileira, contribuiu consideravelmente para a renovação de nossas casas, tendo em vista sua importância no setor da construção civil. Tive a oportunidade de colaborar com a APEB para organizar festividades em parceria com as comunidades portuguesa e brasileira. Durante muitos anos, celebramos a festa portuguesa na Praça Van Meenen, assim como vários eventos sul-americanos na Praça Marie Janson. Desde que assumi a prefeitura, reforcei essas iniciativas.
3. Saint-Gilles acolhe uma das maiores comunidades brasileiras e portuguesas da Bélgica. Como o senhor avalia a importância dessa comunidade para a vida social, cultural e econômica da comuna?
Essa comunidade é particularmente ativa, sobretudo na Chaussée d’Alsemberg, mas também em todo o setor de hotelaria, restaurantes e cafés, onde existem muitas lojas e mercearias especializadas em produtos portugueses. No cruzamento entre as ruas Defnet e Crickx e no Boulevard Jamar, vários restaurantes de bairro oferecem uma variedade de pratos, especialmente bacalhau preparado de diversas maneiras e carnes bovinas grelhadas. É impossível não ouvir, em Saint-Gilles, o seu sotaque melodioso. Todos os bairros apresentam influência portuguesa ou brasileira.
4. A comunidade brasileira conta com vários comerciantes e empresários estabelecidos em Saint-Gilles. Como o senhor percebe a contribuição deles para o desenvolvimento da comuna e para a criação de empregos?
A comunidade brasileira de Saint-Gilles desempenha um papel essencial no desenvolvimento da comuna e na criação de empregos. Sua presença enriquece o tecido econômico local graças à diversidade de seus comércios e serviços, que vão de restaurantes a lojas especializadas. Esses empresários não apenas oferecem uma variedade que atrai tanto os moradores quanto os visitantes, mas também contribuem para dinamizar a vida local. Além disso, ao criarem empregos, contribuem para a redução do desemprego e para a melhoria das condições de vida dos residentes. As empresas brasileiras, muitas vezes dirigidas por membros da própria comunidade, também permitem fortalecer os vínculos sociais e culturais entre as diferentes populações de Saint-Gilles. Sua capacidade de inovar e de se adaptar às necessidades do mercado local é um recurso valioso para o desenvolvimento econômico da comuna. Em resumo, a contribuição dos comerciantes e empresários brasileiros para Saint-Gilles é significativa, tanto no plano econômico quanto no social, e o compromisso deles favorece um ambiente dinâmico e inclusivo para todos os habitantes.
5. Existem projetos ou iniciativas da Comuna de Saint-Gilles destinados a reforçar ainda mais a integração da comunidade lusófona e a apoiar os comerciantes e empresários brasileiros e portugueses?
Entre as próximas iniciativas, teremos as próximas eleições, recepções com os embaixadores, simbolizadas pela Portadora de Água, assim como a festa nacional. Também acolhemos a apresentação, em pré-estreia, de Astérix e Obélix na Lusitânia. Tenho um antigo sonho, compartilhado por muitos embaixadores de Portugal e do Brasil: criar uma Casa da Lusofonia para valorizar a cultura lusófona e apresentá-la ao restante do mundo, aqui, na capital da Europa.
Por Ângela Piqui / fotos Yago Achilles




